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            A Democracia dos Cidadãos (ou dos “amigos do rei”)

 

                                                                        José Gilbert Arruda Martins*

 

 

            Será que os responsáveis pelo poder público em Grajaú sabem o que é Democracia? Acreditamos que não. A verdadeira Democracia, aquela que implica o total respeito aos Direitos Humanos, está ainda bastante longe em nosso município. Ela existe apenas no papel e na ignorância do analfabetismo político de administradores preocupados em enriquecer às custas do dinheiro público.

            Por que afirmamos isso? Por que não é difícil perceber, para quem olha com mais cuidado, o descaso total com a coisa pública em Grajaú. É obvio também, que esse estado profundamente lamentável, de abandono e irresponsabilidade não vem de hoje, há tempos, de administração em administração o caos se instalou. É claro, e notório, que o caos beneficia uns poucos em detrimento da maioria do nosso povo. O que vemos hoje em dia, é uma continuidade de uma política absurda que precisa urgentemente ser mudada.

            O cidadão e a cidadã grajauense na realidade usufrui de uma cidadania aparente, virtual. Existem em nosso município milhares de cidadãos virtuais.

            Vamos nesse breve artigo, desvendar as engrenagens que produzem este tipo de político, descompromissado e, irresponsavelmente envolvido com corrupção e nepotismo. Vamos tentar também, mostrar as conseqüências sociais, culturais e políticas para as pessoas de bem da nossa cidade e município.

            Todos os cidadãos e cidadãs de Grajaú têm mais ou menos responsabilidades na produção dessa violência que é a corrupção, desemprego, nepotismo, escolas abandonadas sem rumo, sem projeto, sem nada. Por que somos também responsáveis? Por que ou nos omitimos ou somos coniventes; nos recusamos a debater e participar mais ativa e concretamente para a melhoria da vida coletiva; quando participamos, pensamos e defendemos apenas o individual. Com essa atitude mesquinha e pobre, todos sofrem, inclusive quem age individualmente.

            Quando não participamos nos omitindo ou quando participamos pensando só em nosso umbigo, colaboramos diretamente, para a construção de políticos e políticas públicas que beneficiam os “amigos do rei”. Nossa participação necessita de coerência, pensando na comunidade e no futuro. Que futuro, você que concorda com esse estado de coisas, acha que está construindo para seus filhos e netos?

            Nenhum município conseguiu progredir sem investir na educação, sem investir nas pessoas, sem pensar e concretizar projetos de modernização e investimentos no crescimento econômico, o que significa investir, consequentemente, no futuro. Por um motivo bem simples: “ninguém planta nada senão tiver uma semente”. Qual a semente plantada por nossos administradores, infelizmente, com a nossa participação?  Plantaram a semente da discórdia, da ganância pelo poder a qualquer custo, do desemprego dos nossos jovens, da bandidagem, assassinatos e intimidações. Grajaú, infelizmente, se transformou numa região violenta, onde os Direitos Humanos são totalmente desrespeitados. E, o que é mais estarrecedor, parece claro, a participação e/ou conivência de autoridades do Legislativo, que deveriam fazer o papel de fiscal dos interesses do povo, são reféns de um poder que emprega parentes e amigos, como se a prefeitura, fosse “a casa da sogra”,  e do Judiciário, que não age em defesa da moralidade do trato à coisa pública.

            Quando as benesses do poder, são assim distribuídas, quando existe uma relação promíscua, entre os três poderes, o povo mais simples, não entende e, na sua ignorância chega muitas vezes a aplaudir, as migalhas jogadas da mesa dos “amigos do rei”. Migalhas essas, em forma de pinturas de meio fio, festas agropecuárias, distribuição de cestas básicas entre outras esmolas que, na realidade, só prolongam a dependência e inviabilizam a verdadeira transformação para melhor da situação de miséria em que jogaram o nosso povo no município de Grajaú.

            Lembro-me, das tentativas que fizemos na década de 1980, juntamente com outras pessoas, para elevar o nível de consciência política de nossa população. Precisamos encontrar um caminho, talvez com pequenos projetos sociais e educacionais dirigidos pelo povo, promoção de eventos culturais, cursos e criação de cooperativas geridas pela própria comunidade, criação de uma base de desenvolvimento do ecoturismo enfim, reuniões da comunidade que inclua trabalhadores, donas de casa, empresários, numa tentativa de sairmos desde caos em que nos meteram.

            O povo grajauense sempre lutou e deve continuar lutando por liberdade e justiça social. A história do nosso povo é uma história de lutas e também de derrotas, mas sempre tivemos a capacidade de dar a volta e continuar. Não vamos deixar as coisas continuarem como estão, “Os amigos do Rei” tomaram de conta do poder, vamos, de forma democrática, tirá-los de lá, pelo bem de todos.

            O povo, os jovens estudantes, devem reagir a essa situação que empobrece a maioria de nossa gente, sabemos que somos sujeitos e não objetos. Por isso é tão importante a organização e a luta. As administrações, uma após a outra em Grajaú, só defenderam seus privilégios de grupo. A participação consciente dos jovens e pessoas de bem, é fundamental numa hora dessas. Não se deixem enganar, todos temos a capacidade de chegar e fazer um bom trabalho pelo bem da maioria. Faça isso, participe. Crie grupos de ação, associações de moradores, partidos políticos e entre democraticamente nessa briga para mudar a cara de nossa cidade. O Brasil entrará brevemente em uma nova era, onde o social será prioridade, onde as pessoas serão respeitadas, participe desse momento histórico, encontrem juntos uma saída para nossa terra.

            As derrotas dos Srs. Milton Gomes e Mercial Arruda que disputavam vagas na Câmara Legislativa do Estado, é um sinal de que as coisas podem mudar. É um ótimo sinal. Novos quadros precisam ser experimentados, quando digo novos, não me refiro apenas à idade, precisamos de pessoas novas na mentalidade política, no jeito moderno, democrático e humano de governar. Um governo transparente, que incentive a participação do povo, que crie o orçamento participativo, que melhores os salários dos professores, que recicle os profissionais da educação, só assim teremos futuro, do contrário, amargaremos anos de violência e fome.

            O momento da derrota desses senhores citados acima precisa urgentemente ser aproveitada num bom sentido. Os grupos, com mentalidade democrática, com idéias de inclusão social e não de apadrinhamento e nepotismo, precisam se encontrar e traçar juntos uma estratégia para as próximas eleições. Troquem idéias com as comunidades periféricas, ouçam o povo e produzam projetos com os anseios de nossa gente e não projetos de enriquecimentos individuais. Não brinquem com a inteligência do povo, os senhores Mercial e Milton zombaram da capacidade popular de enxergar as coisas. Chegou a hora Grajaú, agora é criar alternativas democráticas e sérias.

            As conseqüências dessas políticas públicas irresponsáveis e autoritárias são as mais trágicas possíveis. Olhem para dentro de vocês, vejam como ficamos mais pobres, não uma pobreza qualquer, ficamos pobres de esperança, de visão de mundo. Roubaram a nossa alma e ainda não percebemos. Vamos para as ruas nas eleições, pedir voto para beltrano e sicrano, sem nossa consciência que nos foi tirada. Andamos de joelhos, pedindo favores aos políticos que elegemos, a humilhação faz parte concretamente de nossas vidas miseráveis. Vendemos nossa alma ao diabo, para eleger grupos que fazem farra com dinheiro público e, ainda os aplaudimos, nas festas, nos clubes. Veja como estamos perdidos. Quem é mais miserável?  Você, que vendeu sua alma, seu espírito, ou os miseráveis das periferias maltratadas de Grajaú? Acorda, se organize, lute conscientemente, para mudar essa situação.

            Vocês já pararam para analisar porque os nossos jovens vivem no álcool? Álcool e drogas fazem parte do cotidiano de nossa juventude. Por que?  Por que as autoridades não sabem fazer, não têm a competência necessária para criar projetos de inclusão social e recuperação da auto-estima do nosso povo. Projetos simples como escolinhas de futebol acompanhadas de uma metodologia pedagógica que forçasse as crianças e jovens freqüentarem a escola. Incentivo aos grupos de teatro e música. Cadê o FEMUG? Acabou, acabou por que? Intrigas, administradores mesquinhos que não conseguem separar a hora da eleição de idéias maiores que beneficiem a maioria.

            Chegamos ao fundo do poço. Grajaú merece outra sorte. Nossa cidade completará, nos próximos anos, dois séculos de história. Chegou a hora Grajaú, agora, a partir desse momento, vamos nos organizar para levantarmos o astral e a auto-estima de nossa gente, para a construção de um projeto de libertação, para vivermos uma sociedade mais feliz e solidária, com emprego, com educação, sem nepotismo e corrupção. Não agüentamos mais sentir que somos roubados. Grajaú necessita de pessoas que enxerguem além de seus próprios interesses, ou não teremos um futuro decente para nós e para nossos filhos.

 

                                                            Brasília, DF, 20 de outubro de 2002.

* José Gilbert Arruda Martins (Betinho), é filho de Amadeu e Neusa, nasceu em Grajaú-Ma, é formada em história pela Universidade estadual do Ceará (UECE), mora em Brasília  desde 1993 onde trabalha como professor do ensino de 3º Grau.

 

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